Coordenador do NEPE, PIBID de Geografia -FBJ, CoordenadorMestre e Doutor (Phd) em Geografia - UFPE

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Doutor em Geografia (stricto sensu) - Universidade Federal de Pernambuco - UFPE (2012); Mestre em Gestão e Politicas Ambientais (stricto sensu) - UFPE (2009); Especialista em Ensino Superior de Geografia (lato Sensu) - Universidade de Pernambuco - UPE (1998); Licenciatura Plena em Geografia - Centro de Ensino Superior de Arcoverde - CESA (1985);   Coordenador do PIBID - Geografia Professor; Orientador de Trabalhos de Conclusão de Curso - TCC, na Graduação e Pós-Graduação (Latu Sensu).

sábado, 8 de agosto de 2015

ENTENDENDO A DIFERENÇA ENTRE RESÍDUOS E LIXO


ENTENDENDO A DIFERENÇA ENTRE RESÍDUOS E LIXO

Tem sido comum encontrar em artigos científicos, o uso dos conceitos lixo e resíduo, como se ambos fosse sinônimos, e levando o leitor a “equívocos interpretativos”. Um exemplo comum dessa situação é quando se utiliza o termo lixo para referir-se aos vestígios deixados pelas sociedades pretéritas que antecederam a Revolução Industrial. Nesses casos talvez fosse mais coerente usar o termo resíduo (lat. Residuu) para designar os restos deixados por essas sociedades. Entretanto esse uso não intencional do termo “lixo” não vem invalidar os textos já escritos, embora contando com a possibilidade de equívocos na interpretação. Essa é uma típica situação com que um leitor menos desavisado pode se deparar, e imaginar que as sociedades pré-industriais produziram “lixo” da forma como se conhece hoje, é desse equivocado que se quer abster.

Um exemplo de uso do termo resíduo aplicado corretamente é encontrado na Arqueologia. Nessa ciência, esse termo só é utilizado para designar os “restos” deixados pelas sociedades pretéritas, o que difere bastante de lixo. Embora exista a diferença entre os termos, não está explícita nas obras já publicadas. Os resíduos, neste contexto, têm um importante papel na reconstituição dessas sociedades. É justamente sob esse ponto de vista, que o conceito de “resíduo” é fundamentado. Figueiredo (1995, p.62), asseverou: “Num primeiro momento, esses habitantes especiais se confundem com os demais elementos do ambiente natural. Aos poucos utilizando” prerrogativas metafísicas “ou evolutivas, surgem (...) os primeiros desequilíbrios ambientais promovidos pelo homem”. (...) este desequilíbrio, caracterizado tanto pelas alterações físicas e pela intensidade das extrações no ambiente natural, quanto pelos “restos” deixados, fruto de sua sobrevivência e de seu desenvolvimento “surge o conceito de resíduo” .

A partir dessa citação, observa-se que o conceito de “resíduo” não teve sua construção de forma aleatória, pelo contrário, guarda um importante significado na sua terminologia conceitual, devendo dessa forma ser utilizado. “Os resíduos produzidos inicialmente eram basicamente excrementos; posteriormente com o inicio das atividades agrícolas e da produção de ferramentas de trabalho e de armas surgiram restos de produção e os próprios objetos após sua utilização. Como os materiais utilizados eram em grande parte de origem natural, a sua disposição inadvertida não causava grande impacto ao meio ambiente. Além disso, o crescimento demográfico e a densidade populacional não tinham a importância atual ”. [1]

Assim, é licito supor, que manter o uso indevido dos termos citados, seria ignorar a existência da diferença conceitual entre os termos “lixo” e ”resíduo”; significa também não considerar os diferentes estágios de desenvolvimento de cada civilização nos seus respectivos tempos históricos. Assim, pareceu mais correto ser criterioso quanto ao uso e a maneira que se quer dar encaminhamento à questão dos resíduos e seus problemas, principalmente porque esse elemento conceitual, encontra-se intimamente associado aos estágios culturais e de desenvolvimento tecnológico de cada sociedade.[2]

 Uma outra importante questão que vai além de suas características físicas, permitindo diferenciar o sentido dos termos “lixo” (Figura 1) e “resíduos”(Figura 2), é a escala da degradação ambiental reclamada em cada época; quantitativo populacional e os estágios técnicos envolvidos na produção. Sobre esses aspectos afirma-se que a evolução da população e a forte industrialização ocorrida neste século determinaram o crescimento vertiginoso de resíduos das mais diversas naturezas, biodegradáveis, não– biodegradáveis, recalcitrantes ou xenobióticos, que determinaram um processo contínuo de deterioração ambiental com sérias implicações na qualidade de vida do homem”. Portanto, nesse artigo adotou-se o termo “resíduo” como menção aos detritos ou restos biodegradáveis produzidos pelas sociedades pré-industriais, e o termo “lixo” para designar os detritos produzidos pelas sociedades modernas industriais(Figura 1). [1]




Figura 1: Depósito de lixo  nos Estados Unidos da Américas. Observa-se três indivíduos caminhando  em meio as gigantescas pilhas de milhares de pneus usados[4]



Figura 2: Pilha de resido de madeira em um deposito de uma serralharia  para produção de Madeira de Fábrica -MDF através de reciclagem. Fonte: Domingosbrunoblogspot.com.2014.

Quanto aos significados desses termos em idiomas estrangeiros, observou-se: espanhol, por exemplo, o termo para “lixo” significa basura, e “resíduo” é semelhante ao português, “resíduo”. No Inglês observou-se: “lixo”, usa-se: refus (refugo); wasted (lixo); garbage ou solid wasted (lixo sólido). Quanto ao termo “resíduo” é designado “residue”. No Brasil tem sido comum interpretar do termo solid wasted como sendo “resíduo sólido” o que não é correto, trata-se na verdade de uma tradução equivocada, uma vez que corretamente traduzido significa lixo sólido. Assim, não justifica manter o uso dos conceitos de forma disparatada.

Características dos resíduos na Pré-História

Segundo a arqueologia, os homens pré-históricos da Idade da Pedra Lascada ou Paleolítico (1,5 milhão a.C 10.000 a.C) a exemplo de outros animais, atuavam como predadores e não produziam alimentos, sendo obrigado a uma vida de nômade, e os poucos resíduos biodegradáveis produzidos eram dispersos na natureza. Nessa condição técnica, as intervenções na natureza tornavam-se insignificantes, dado a pouca interferência no meio ambiente.


Os resíduos na Pré-história eram basicamente excrementos [1]. Mais tarde, a Revolução Neolítica permitiu o sedentarismo, iniciou-se a construção de vilas e produção de novos artefatos de uso do cotidiano. Essa nova vida produziu resíduos em maior quantidade, advindo em parte dos objetos abandonados que após sua utilização eram lançados próximo às aldeias, em rios e florestas. Entretanto devido a esses materiais rejeitados possuírem características naturais dada às condições técnicas vigentes, sua disposição não oferecia impactos ambientais significantes. Foi no neolítico que se iniciaram os acúmulos de detritos. [3]

Observa-se na figura um concepção artística que elucida o cotidiano de uma coleta de peixes e conchas em um litoral.Fonteflinckriver,com.2014 .

Os “sambaquis”, geralmente encontrados na forma de montículos ao longo do litoral brasileiro, notadamente no Sul do Brasil é um exemplo(Figura 1). Esses resíduos compostos por conchas de moluscos, ossos de animais, espinhas de peixes e até esqueletos humanos é apenas um dos exemplos do início da geração e conseqüente acúmulo de resíduos existentes em várias regiões da Terra. Esses resíduos têm permitido que arqueólogos identifiquem informações sobre a vida nessas comunidades e o processo de sedentarismo.

Figura 2 e 3: Residuos ou  sambaquis localizado no litoral catarinense conhecido por Figueirinha, possui cerca de 18 metros de altura Fonte: ttp://pt.wikipedia.org/wiki/Sambaqui

Detalhes de um Sambaqui. Fonte:Lagamr.net.2014.

*Referências:
1. BIDONE, F. & POVINELLI, J. Conceitos Básicos de Resíduos Sólidos. São Carlos, EESC-USP, 1999.
2. FIGUEIREDO, P. J.M. A Sociedade do Lixo. Os resíduos a questão energética e a crise ambiental.
3. FOUCAULT, M. A microfisica do poder.Zahar.Rio de Janeiro,1979.
4. DIAS,G.F.Iniciação á Temática Ambiental.Gaia, pág.57 São Paulo, 2002. 
* por ordem de citação.
5.Artigo parte de Tese de Doutorado de Natalicio de Melo Rodriuges. A ESTRADA COMO ELEMENTO FRAGMENTADOR DE ECOSSISTEMAS: ANÁLISE DA ESTRUTURA DA ZONA DE AMORTECIMENTO DO PARQUE NACIONAL DO CATIMBAU COMO CONTRIBUIÇÃO AO ESTUDO DA ECOLOGIA DA PAISAGEM.