Coordenador do NEPE, PIBID de Geografia -FBJ, CoordenadorMestre e Doutor (Phd) em Geografia - UFPE

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Doutor em Geografia (stricto sensu) - Universidade Federal de Pernambuco - UFPE (2012); Mestre em Gestão e Politicas Ambientais (stricto sensu) - UFPE (2009); Especialista em Ensino Superior de Geografia (lato Sensu) - Universidade de Pernambuco - UPE (1998); Licenciatura Plena em Geografia - Centro de Ensino Superior de Arcoverde - CESA (1985);   Coordenador do PIBID - Geografia Professor; Orientador de Trabalhos de Conclusão de Curso - TCC, na Graduação e Pós-Graduação (Latu Sensu).

quinta-feira, 27 de março de 2014

O Turismo, o Lugar e a produção do Não-Lugar

O TURISMO E A PRODUÇÃO DO NÃO‑LUGAR

ANA FANI ALESSANDRI CARLOS

"O que os homens perseguem com tanta pressa,
como ondas agitadas pela tempestade iminente?"   Paul Klee

(Do livro: Turismo: Espaço, Paisagem e Cultura, Editora Hucitec,
org. Eduardo Yázigi, Ana Fani Alessandri Carlos e Rita de Cássia, Ariza da Cruz, págs. 25-39, 1999)

A análise do mundo moderno coloca‑nos diante de uma série de desafios decorrentes das transformações aceleradas provocadas pelo proces­so de globalização como produto de desenvolvimento do capitalismo que destrói barreiras e ultrapassa obstáculos, como conseqüência de sua reali­zação. Nesse processo o espaço tem papel fundamental na medida em que cada vez mais entra na troca, como mercadoria. Isso significa que áreas inteiras do planeta, antes desocupadas, são divididas entrando no processo de comercialização. Cada vez mais o espaço é produzido por novos setores de atividades econômicas (1) como a do turismo, e desse modo praias, montanhas e campos entram no circuito da troca, apropriadas, privativamente, como áreas de lazer para quem pode fazer uso delas.

O lazer na sociedade moderna também muda de sentido, de atividade espontânea, busca do original como parte do cotidiano, passa a ser cooptado pelo desenvolvimento da sociedade de consumo que tudo que toca trans­forma em mercadoria, tornando o homem um elemento passivo. Tal fato significa que o lazer se torna uma nova necessidade. Isto é, no curso do desenvolvimento da reprodução das relações sociais, produz‑se nova ativi­dade produtiva, diferenciada, com ocupações especializadas que produz um novo espaço e/ou novas formas de uso deste espaço. "A civilização indus­trial moderna com seu trabalho parcelar suscita uma necessidade geral de lazer e de outro lado no quadro da necessidade, necessidades concretas diferenciadas". (2)

Nesse sentido cidades inteiras se transformam com objetivo precípuo de atrair turistas, e esse processo provoca de um lado o sentimento de estranhamento - para os que vivem nas áreas que num determinado momento se voltam para a atividade turística - e de outro transforma tudo em espetáculo e o turista em espectador passivo.

O sentimento de estranhamento aparece de forma inequívoca em "Espe­culação Imobiliária", de Ítalo Calvino, no qual descreve as transformações ocorridas na Riviera italiana a partir da incorporação da área na rota do turismo e as mudanças que este fato provoca nos moradores da cidade diante de uma "paisagem querida que morre", da " visão de uma cidade que era sua e que se desfigurava debaixo do concreto", fatos que dificultam a identificação com o lugar da vida. Desse modo, "o lugar em que nasceu foi convertido em ruínas e a pátria que buscava é feita apenas de clichês. Ele vive neste impasse. Aos olhos, esses simulacros vê substituir tudo aquilo que acabou, acelerando sua desaparição. Implicam perda. Mas estes cenários, em vez de remeterem à falta, são, antes de tudo, construções do mundo". (3)

A indústria do turismo transforma tudo o que toca em artificial, cria um mundo fictício e mistificado de lazer, ilusório, onde o espaço se transforma em cenário para o "espetáculo" para uma multidão amorfa mediante a criação de uma série de atividades que conduzem a passividade, produzindo apenas a ilusão da evasão, e, desse modo, o real é metamorfoseado, transfigurado, para seduzir e fascinar. Aqui o sujeito se entrega às manipulações desfrutando a própria alienação e a dos outros.

Esses dois processos apontam para o fato de que ao vender‑se o espaço, produz‑se a não‑identidade e, com isso, o não‑lugar, pois longe de se criar uma identidade produz‑se mercadorias para serem consumidas em todos os momentos da vida, dentro e fora da fábrica, dentro e fora do ambiente de trabalho, nos momentos de trabalho e de não‑trabalho.

O que me moveu, inicialmente, a fazer este texto foi uma sensação produzida por uma viagem ao Havaí, especificamente Honolulu. Sensação que se é parte de um cenário, a sensação de que tudo é controlado, que cada passo seu ou mesmo cada gesto é esperado, cada atitude predeterminada. Este espaço é, na realidade, produto de um processo no qual nada é natural, tudo se volta para o espetáculo porque aqui o lugar é ele próprio mercadoria. Em Honolulu tudo é muito bem planejado, o que dá a sensação que se é um ator participando de um filme. Em nenhum outro lugar essa sensação parece ser tão forte. Ao caminhar‑se, particularmente pela área dos hotéis, na praia de Waikiki, a sensação de cenário de filme se reforça. Os hotéis, uns ao lado dos outros ‑ como grandes torres fincadas no chão ‑ têm lobbies que se comunicam, pontuados por belíssimos (mas falsos) jardins ,tropicais, absolutamente simétricos, sem uma única folha caída no chão, sem nem tampouco folhas amarelecidas, fontes de água corrente, lagos com peixes coloridos, tochas, aléias serpenteadas por belos gramados de todos os tamanhos, poltronas confortáveis bancos colocados estrategicamente e, evidentemente, muitas lojas. Tudo muito limpo. Um filme de Elvis Presley. A saída do hotel para ir à praia também não parecia menos controlada, elevadores conduziam os hóspedes das várias torres à rouparia para se pegar toalhas de praia (é claro que só depois de assinar um recibo, no qual se esclarecia sobre o uso e o horário da devolução).

O caminho que conduzia à areia era uma trilha entre torres, estreito, muito bem cuidado e limpo (isto é, sem areia no chão, este era de cimento), só se distinguia pela placa "acesso a praia pública". Isso delimitava os acessos; à praia não se acessava de qualquer ponto. Também não se podia andar livremente pela areia uma vez na praia, pois alguns hotéis construíam aí seus jardins e decks, impedindo a liberdade dos passos, exigindo o serpentear. Jovens fortes, ar atlético, com a pele corretamente dourada pelo sol, sentados em altas cadeiras de salva‑vidas equipadas com potentes binóculos e celulares, vigiavam os banhistas dando aquele ar de segurança ao qual nós brasileiros não estamos acostumados. Mas na realidade o que aqui surpreende é que nesse trecho da praia é quase impossível ao banhista correr algum tipo de perigo pois a água era rasa a ponto de impedir banho de mar em alguns trechos, ou as pedras que formavam um tapete sob a água o tornava desconfortável, logo via‑se à beira‑mar as piscinas lotadas dos hotéis, cuidadas por seguranças.

Outro fato chama bastante atenção ‑ é o show de "hula" dançada em cenários cinematográficos com scripts bem ensaiados e pausas para fotografias no meio e no final do espetáculo quando os espectadores são convidados a se somarem às dançarinas para tirar fotos, como parte intrínseca do show. O apresentador, sempre sorridente, organizava as filas para fotos ao lado das bailarinas. Por todo lugar se espalhavam barraquinhas onde se podiam comprar artigos típicos distribuídos de forma estratégica no caminho da saída; aqui também se podem comprar filmes Kodak para máquinas fotográficas ou mesmo tirar algumas fotos com um profissional (o espetáculo era patrocinado pela Kodak que colocava ônibus à disposição dos turistas buscando‑os nos hotéis e, após o show, levando‑as a um shopping‑center onde havia mercadorias de todos os tipos e preços para todos os orçamentos). Tudo perfeitamente organizado, lembrando nossos sonhos de um paraíso tropical.

As surpresas não param por aí. O pôr‑do‑sol reservou‑nos um espetáculo à parte, não tanto pela beleza (que era na verdade estonteante, pois o sol se põe no mar), mas como se estivéssemos prontos para ir ao cinema; as pessoas iam chegando, sentavam na areia, obviamente com suas máquinas fotográficas ou de filmar, absolutamente indispensáveis - o turista vê através da lente e só observa o que a câmara surpreende, - esperando silenciosamente o pôr-do-sol. Quando este se põe e como se o filme tivesse acabado, pois todos se levantam e saem da praia formando um fluxo que se asseme­lha à saída do cinema, ou melhor, ao fim de uma partida de futebol, pelo número, só que saem organizada e silenciosamente como se alguém os esti­vesse dirigindo.

Em todos esse lugares o espetáculo contempla a vitória da mercadoria que produz cenários ilusórios, vigiados, controlados sob aparência da liber­dade.

Honolulu é um dos milhares de exemplos a que podemos recorrer, espa­ço reproduzido como perfeito simulacro.

É possível presenciar outros espetáculos produzidos após o pôr‑do‑sol - todos muito impressionantes pelo artificialismo de um fenômeno tão na­tural ‑ a exemplo do que ocorre na costa oeste dos E.U.A., em Carmel por exemplo, ou mesmo na costa leste, em Key West, por exemplo. Só que, aqui, uma ilha onde é muito difícil encontrar a praia, há um lugar pequeno, uma espécie de laje de aproximadamente 100 metros de extensão, por uns 10 de largura, de onde se pode ver o mar, escondido atrás de um estaciona­mento (em Mallowry Square) pontuado de "barracas" que vendem camise­tas e coisas "do lugar", onde shows improvisados (daquele tipo que quando acaba se passa o chapéu) distraem os "espectadores" (é essa a sensação) que para aí se dirigem nos finais de tarde. Nessa hora centenas de pessoas se acotovelam para ver o pôr‑do‑sol. Quando o sol parece, numa ilusão de ótica, tocar a água, os shows terminam e todos voltam a atenção para o mar. Aqui também, quando o sol se põe, todos saem, como se o filme tivesse acabado. Em alguns momentos ocorre a sensação de que as pessoas vão aplaudir.

O espaço produzido pela indústria do turismo perde o sentido, é o presente sem espessura, quer dizer, sem história, sem identidade; neste sentido é o espaço do vazio. Ausência. Não‑lugares. Isso porque o lugar é, em sua essência, produção humana, visto que se reproduz na relação entre espaço e sociedade, o que significa criação, estabelecimento de uma identidade entre comunidade e lugar, identidade essa que se dá por meio de formas de apro­priação para a vida. O lugar é produto das relações humanas, entre homem e natureza, tecido por relações sociais que se realizam no plano do vivido, o que garante a construção de uma rede de significados e sentidos que são tecidos pela história e cultura civilizadora produzindo a identidade. Aí o homem se reconhece porque aí vive. O sujeito pertence ao lugar como este a ele, pois a produção do lugar se liga indissociavelmente à produção da vida. "No lugar emerge a vida, posto que é aí que se dá a unidade da vida social. Cada sujeito se situa num espaço concreto e real onde se reconhece ou se perde, usufrui e modifica, posto que o lugar tem usos e sentidos em si. Tem a dimensão da vida" (4), por isso o ato de produção revela o sujeito.

A identidade, no plano do vivido, vincula‑se ao conhecido‑reconhecido. A natureza social da identidade, do sentimento de pertencer ou de formas de apropriação do espaço que ela suscita, liga‑se aos lugares habitados, marca­dos pela presença, criados pela história fragmentária feitas de resíduos e detritos, pela acumulação dos tempos. Significa para quem aí mora "olhar a paisagem e saber tudo de cor" porque diz respeito à vida e seu sentido, marcados, remarcados, nomeados, natureza transformada pela prática so­cial, produto de uma capacidade criadora, acumulação cultural que se ins­creve num espaço e tempo ‑ essa a diferença entre lugares e não‑lugares.

Assim o não‑lugar não é a simples negação do lugar, mas uma outra coisa, produto de relações outras; diferencia‑se do lugar pelo seu processo de constituição, é nesse caso produto da indústria turística que com sua atividade produz simulacros ou constróem simulacros de lugares, através da não‑identidade, mas não pára por aí, pois também se produzem compor­tamentos e modos de apropriação desses lugares.

No primeiro caso o exemplo clássico da Disneylândia, tão bem analisa­do por Baudrillard e Eco, ou ainda Epcot Center, Universal Studios, Down­towm de San Diego. Como num passeio por Disney, o que importa aí é o trajeto; é ele que dá a sensação do conhecer, no percurso se sucedem ima­gens do lugar. Para Baudrillard (5), o imaginário da Disney não é verdadeiro nem falso, é uma máquina de dissuasão encenada para regenerar no plano oposto a ficção do real: efeito imaginário esconde que não há mais realida­de além como aquém dos limites do perímetro artificial. A era da simulação vai desse modo eliminando quaisquer referências ligadas à vida humana. Aqui a indústria turística criou um lugar que só existe pela ausência.

Para Eco a Disney é uma alegoria da sociedade de consumo, lugar do imaginário absoluto e também o lugar da passividade; seus visitantes devem aceitar aí viver como autômatos. O acesso a cada atração é regulamentado por barreiras e tubos metálicos dispostos em labirintos que desencorajaria qualquer iniciativa individual. Assim, para o autor a Disney é a quintessên­cia da ideologia do consumo, obra‑prima do falso. Mas a Disney é apenas um exemplo de um espaço sem memória, posto que daí está ausente a plura­lidade dos tempos. Aqui o simulacro é uma das expressões do não‑lugar.

É preciso também chamar atenção para o fato de que a indústria do turismo não produz apenas não‑lugares mas também um comportamento e fun­damentalmente um modo de ver/estar em determinado lugar, como em Nova York, Paris, Roma ou Buenos Aires. O lazer aqui se refere ao distante, isto é, o espaço do lazer se dissocia do da vida e passa a referir‑se a um lugar distante ligado ao sonhado ou imaginado.

Refiro‑me, aqui, aos pacotes turísticos que programam, controlam, vigiam o uso que se impõe sobre um espaço pleno de sentido. É evidente que não se pode dizer que essas cidades sejam simulacros, pois é claro que não o são, o que quero dizer é que o pacote turístico ao controlar, delimitar o turista acaba por ignorar a identidade do lugar, sua história, cultura, modo de vida banalizando‑os, pois produz a não‑relação, o não‑conhecimento, o distanciamento dado pelo olhar orientado e vigiado que predetermina, pre­concebe.

O turista assume uma postura passiva, ele deixa acontecer e se deixa levar por um programa, pelas mãos seguras de um guia. Os pacotes turísti­cos têm papel importante, pois homogeneízam o comportamento, direcionam a escolha tratando o turista como mero consumidor, delimitam hora, lugar, o que deve ser visto e o que não deve, além do tempo destinado a cada atração num incessante "veja tudo depressa para dizer que viu tudo", regis­tre e fotografe. Desse modo o pacote turístico representa a lei e a ordem estabelecida do perceber o espaço e tempo na sociedade contemporânea, produzidos por uma racionalidade que engendra a passividade. Isso signifi­ca a sujeição do turista ao programa da agência, o que faz com que mesmo os chamados "horários livres" acabem sendo despendidos em atividades programadas pelas agências com custos extras.

Cidade de Buenos Aires, manhã ensolarada. Dentro de um ônibus que ia iniciar um city‑tour um turista se dirige à guia: de manhã vamos conhecer a cidade (duas horas ‑ como se isso fosse possível, mas os city‑tours pare­cem ter poder de convencer o turista dessa possibilidade ), à noite vamos ouvir tango para o qual já fizemos a reserva com você, à tarde passeio ao Tigre, amanhã pela manhã vamos fazer compras, à noite outro show de tan­go (também com reserva feita pela guia numa outra casa de tango para turis­ta com jantar incluído), o que vamos fazer à tarde, não tem nada programado?

O turismo apresenta‑se como uma forma de programa gerenciada pela empresa: todos os instantes previstos e preenchidos, Tudo programado nos mínimos detalhes no tempo e no espaço. Os guias explicam aos turistas o que ver, o que estão vendo e escolhem o que deverão ver num programa em que a quantidade dos lugares vistos é o que importa, limitada apenas pela equação tempo/distância: 24 horas do dia, número de dias de viagem/dis­tância entre lugares e meios de transporte utilizado. Essa rapidez impede que os olhos desfrutem da extensão da paisagem, "que o caminho que ele ­segue vai lhe ficar na lembrança com a excitação produzida por lugares novos, atos inabituais" (6). A busca dos lugares se desfaz na pressa. Passa‑se em segundos por séculos de civilização, faz‑se tábua rasa da história de gerações que se inscrevem no tempo e no espaço. Tudo previsto nos míni­mos detalhes propõe um uso do tempo e, com isso, uma forma de apropria­ção do espaço. Num autêntico tour de force, consentido, os programas produzem uma programação que pouco espaço permite à criatividade. A carga de atividades faz com que levas de turistas cheguem aos hotéis de madrugada, deixando‑os logo de manhã cedinho ao raiar do sol. A indústria turística impõe uma nova racionalidade, que não é diferente da imposta ao processo de trabalho na fábrica. Por sua vez, o turista acostumado a uma rotina massacrante no seu cotidiano, vê sufocar‑se um desejo que nem se esboçou, o de experimentar, que permite a descoberta dos lugares como descoberta da vida.

O que está em questão, realmente, é o fato de que a hora de não‑trabalho destinada ao lazer não escapa das regras do mercado; transporte, cultura, viagem, tudo vira mercadoria, e esta transforma lugares e produz uma for­ma de ele se apropriar: a não‑apropriação. O turismo cria uma idéia de reco­nhecimento do lugar mas não o seu conhecimento, reconhecem-se imagens antes veiculadas mas não se estabelece uma relação com o lugar, não se descobre seu significado pois os passos são guiados por rotas, ruas preesta­belecidas por roteiros de compras, gastronômicos, históricos, virando um ponto de passagem (os passos dos turistas são sempre apressados, aí não se fica, só se deixa passar). Fragmentam‑se os lugares, exclui‑se o feio, afasta-­se o turista do pobre, do usual; trajetos feitos por ônibus refrigerados ou vans confortáveis com guia de fala mansa e agradável, sempre bem dispos­to, sorriso nos lábios, naquele estilo absolutamente igual em todo lugar, estereotipado, que infantiliza o turista.

Aqui o tempo se acelera na busca de um pseudoconhecimento de luga­res. Sem referências não se produz sequer o lugar na memória. No fim do caminho o cansaço, do sobe e desce do ônibus, do entra e sai de lugares desconhecidos que, parece, continuaram desconhecidos, o olhar e os passos medidos religiosamente em tempo, um tempo produtivo que aqui se impõe sem que disso as pessoas se dêem conta. Nesse sentido a viagem cronome­trada torna‑se travessia, toda ela percurso, é preciso pôr‑se em movimento para não perder nada. Flânerie, passos lentos, olhares perdidos não cabem. Tudo é diferente e ao mesmo tempo sempre igual.

O tempo cotidiano homogêneo, a medida abstrata do tempo comanda a vida social em todos os momentos. O tempo do relógio se impõe, aqui ele é até mais importante que no trabalho pois indica uma rigorosa repartição programada do tempo. O contemplar uma fachada ou uma criança brincan­do pode levar o turista a perder o ônibus. O tempo do não‑trabalho faz parte do tempo social, contrapartida do tempo dedicado à produção, mas domina a economia porque é tempo de consumo, daí a importância da indústria turística hoje no mundo, uma vez que enormes setores produtivos se constróem a partir do não‑trabalho.

A indústria do turismo sabe captar (além de produzir) o desejo transfor­mando tudo que toca em espetáculo controlado, o que transforma o indivíduo num ser reduzido à passividade e ao olhar. Reproduz um espaço e tempo controlados, homogêneos, vigiados. Reproduz a reprogramação da vida sob a alegação da fuga do cotidiano, revelando uma ilusão sob a aparência de liberdade de escolha. Na realidade há uma contradição não revelada visto que o lazer produz a mesma rotina massacrante, controlada e vigiada do trabalho, sob diferentes feririas em lugares diferentes. A indústria turística reforça a hierarquia social produzindo espaços diferenciados exclusivos fe­chados. A característica do espaço produzido é a do homogêneo, altamente excludente, com ausência de identidade. O lugar é apenas o que pode ser visto, fotografado e depois esquecido.

A vigilância, o controle da indústria turística, está em toda parte produ­zida pela sociedade do consumo que produz a identidade abstrata, domi­nando todos os momentos de lazer, seja ele de fim de semana, seja de férias (não importando a duração), e que produz o consumo do espaço.

O mundo contemporâneo reproduz‑se a partir de uma nova dimensão do espaço‑tempo; com isso cria‑se também, no dizer de Harvey, novas manei­ras dominantes pelas quais experimentamos o tempo e o espaço. (7) A intensi­ficação dos processos de instantancidade que aumentam a rapidez e o fluxo de mercadorias, dinheiro, informações e serviços transforma o quadro de vida. Walter Benjamin já nas primeiras décadas do século explicitava ao analisar o "flâneur Baudelaire que de Baudelaire" que as formas do pro­gresso detonado por Taylor significavam o fim da flânerie e se perguntava o que viria depois. Nesse "novo passo", determinado por outro ritmo, o turis­ta quem sabe poderia ser esse personagem contemporâneo capaz de substi­tuir o flâneur com seu passo rápido, controlado, vigiado, que nada observa pois olha sem realmente ver. Isso porque o tempo linear predomina, a repe­tição e a medida do tempo se aperfeiçoa. Os dias de viagem seguem‑se sempre dentro da mesma rotina, numa programação impecável, os dias sem­pre iguais mesmo se os lugares são diferentes porque o tempo reduzido e a forma do seu uso impedem que as especificidades dos lugares, na sua dife­rença, aflorem, tudo se homogeneíza.

O lazer é hoje um elemento do processo de reprodução, um tempo que se organiza em função da reprodução de relações sociais. O tempo tem as mesmas propriedades do espaço. O que organiza toda a vida social, porque organiza a sociedade de consumo, organizando lazeres. Impõe‑se pela pu­blicidade e pelo marketing. Aqui se produz a identidade abstrata. Aqui o reconhecimento é exterior e dado pela propaganda. O sentido do conhecer um lugar se transforma ou se realiza no testemunho da compra: as camisas e blusas do Hard Rock Café espalhadas pelo mundo, as inúmeras camisetas, bolsas, chaveiros etc., estampando o nome de lugares sedutores.

Esse quadro é revelador de nossa condição contemporânea apresentada por Brissac como "aquela de ser estrangeiro em seu próprio país". Por ana­logia podemos afirmar que ao cabo de qualquer viagem não se conhecem lugares mas criam‑se impressões fugidias que logo se apagarão. "Os longos percursos no espaço aberto se converteram num permanente movimento sem objetivo final. Agora só importa a constância e a velocidade do deslo­camento. Da viagem só sobrou a transportação e o movimento. As pessoas vivem sendo levadas de um lugar para outro, da casa para o trabalho, de um país para outro. Não há mais destinação. Passa‑se o tempo em trens, no tráfico urbano, em estações. Todos os lugares do mundo se transformam num só lugar: hotéis, aeroportos, paradas de ônibus. Lugares de trânsito por onde passam esses indivíduos que estão sempre andando, que nunca se de­têm". (8)

O turismo cria ilusões e lugares imaginários que não se conhecerá jamais pois o tempo de uma viagem turística impede qualquer contato, passa‑se, nesse contexto não se faz mais do que passar. Nesse sentido não se chega a "empreender urna viagem para ver com os próprios olhos uma desejada cidade e imaginar que se pode gozar, em uma coisa real o encanto da coisa sonhada" (9), pois não há a menor dúvida que nossos sonhos também são ma­nipulados.

Os city‑tours são bastante característicos desse passar, realizam as imagens vendidas pela publicidade: Paris e a torre Eiffel, Roma e o Coliseu, Nova York (que na realidade é Manhattan) e os Tuwins ou o Central Park, Londres e o Big Ben, Los Angeles com seus bulevares e a Universal Stu­dios, Buenos Aires e a Plaza de Mayo, Rio de Janeiro e Copacabana etc. E, assim, vai numa seqüência interminável onde cada lugar se representa por um signo sem significado reduzido a uma coisa sem sentido posto que for­ma. A cidade transformada numa ou duas imagens perde seu significado, seu conteúdo, mas há também um panorama visto do alto indispensável num city‑tour. Tal fato cria o voyeur, coloca‑o â distância "ser apenas esse ponto que vê eis a ficção do saber"  escreve Certeau (10). "Aqui está presente a idéia de que se produz um quadro que tem como condição de possibilidade um esquecimento e desconhecimento das práticas ( ... ) escapando às totali­zações do olhar, existe uma estranheza do cotidiano que não vem a superfí­cie. Aquele que sobe até lá no alto foge à massa que carrega e tritura em si mesmo toda a identidade da autores ou de expectadores". Continua Cer­teau, "lá embaixo vivem os praticantes ordinários da cidade onde as redes de fragmentos de trajetórias individuais vão criando os traços, os usos e os sentidos do espaço da cidade". (11)

O olhar viaja através da paisagem sem nada efetivamente notar, sem nada observar, conhecer, lugares assépticos sem cheiro, sem vida, imagens fugidias que se sucedem num fluxo de informações que se embaralham pelo excesso, pela diversidade, porque não são vividas, vivenciadas, vêm de fora para dentro, exteriorizam‑se, pois o sujeito não se apropria ‑ é preciso seguir os passos ao contrário, inverter‑se o roteiro, perder‑se nos lugares.

Daí o esquecimento, a não ser imagens efêmeras que não resistem ao tempo, pois dentro de poucos anos cada lugar visitado virou apenas um nome. O turista vira voyeur, não observador. Para Charles Baudelaire (12), o observador é um príncipe que consegue estar incógnito em toda parte; no caso do nosso turista, ele apenas olha a paisagem que desponta como um panorama que precisa ser desvendado com calma, pois nem sempre ou qua­se nunca os traços reveladores do lugar são visíveis, o que requer um outro tempo. Para Roncayolo "a identidade vem da cultura mais do que da estrita localização física ( .. ). A noção de percepção do espaço reduz o conheci­mento dos arranjos, dos usos e sensações que a paisagem e o dispositivo urbano suscitam ou cristalizam e que não são de ordem visível. O elemento cultural fornece as melhores referências e uma apropriação mais profunda que a lógica aparente do plano e das massas ( ... ). O aprendizado da cidade é outra coisa que a leitura neutra de um plano ou de uma paisagem ( .... ) mais que percebido o território é apreendido pelo indivíduo e construído por prá­ticas e crenças que são de natureza social". (13)

Há ainda um elemento que não pode ser negligenciado, a indústria do turismo ramifica‑se produzindo uma série de mercadorias voltadas para sua realização. Jornais, revistas e a televisão voltam‑se para a criação(?), mani­pulação de desejos e gostos, ao precisar, especificar e orientar escolhas, produzem um modelo geral do "estar satisfeito" como consumidor de lazer. Esses meios de comunicação criam estereótipos, comportamentos e dados de lazer que relegam a viagem a uma satisfação máxima imposta pelos pa­drões da sociedade de consumo.

Em muitos casos as publicações subestimam a capacidade dos turistas. Os exemplos são muitos mas vamos recorrer a um caso significativo, o livro New York de Kátia Zero, posto que é um grande êxito editorial, trata o turista brasileiro antes de mais nada como consumidor e desse modo o livro se dirige às compras. Isso porque subestima‑se o leitor, sua inteligência, ignora curiosidades que não se refiram a mercadorias, relega o turista ao reduzido papel de mero consumidor. Aqui tudo é simplificado, superficial. Nova York, por exemplo, tem aproximadamente 160 museus, muitos deles estão entre os melhores do mundo, mas quase nada sobre eles aparece no livro. Basta olhar o índice, lá não acharemos nenhum, é preciso tentar o índice remissivo para achar alguma referência. Ao item "clássico, ópera, balé e teatro" atividades que fazem a fama de Nova York como capital cul­tural é dedicada meia página. Só para exemplificar tomemos o caso do Lincoln Center, aqui é possível assistir espetáculos de ópera que jamais serão realizados no Brasil, o balé da cidade de Nova York é um dos melhores do mundo (aqui não raro é possível assistirmos bailarinos do Bolshoi) apresen­tando uma dança de beleza absoluta. A sinfônica apresenta as peças mais importantes do repertório clássico num deleite para os ouvidos. As apresen­tações na maioria dos casos simultâneas "é a sublimação dos sentidos", como diria Paul Klee, mas nada é revelado no livro. Em compensação o turista brasileiro poderá achar de tudo pois há endereços onde se comprar trezen­tos tipos diferentes de dardo, material de equitação, ou mesmo temperos, aqui também há dicas para se alugar uma gôndola, ou mesmo um iate, ou ainda uma fantasia, sem esquecer é claro os night‑clubs. Evidentemente aqui encontra‑se até uma maneira de se entrar num clube noturno onde não se é sócio.

Como indústria, o turismo não me parece criar perspectivas que se abri­riam para o conhecimento do lugar ou para o lazer como atividade com possibilidades de se impor num cotidiano fragmentado ou mesmo alienado, como perspectiva de superação das alienações impostas pelo cotidiano. Só a viagem, como descoberta, busca do novo não pasteurizado, abre a pers­pectiva de novos lugares, novas paisagens que se produzem em territórios diferenciados, como possibilidades de recomposição do passo do flâneur, daquele que se perde e que, por isso, observa. Benjamin lembra que "saber orientar‑se numa cidade não significa muito. No entanto, perder‑se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução" (14). Mas como desvendar o que os passos perdidos parecem revelar?

Lorca em Poeta em Nova York (15), produz uma poesia da cidade que se cria enquanto "carne mía, alegria mía y testimonio mio ( ... ). No os voy a decir lo que és Nueva York por fuera porque juntamente com Moscú son las dos ciudades antagónicas solo las quales se vierte ahora un río de libros descriptivos, ni voy a narrar un viajo, pero sí mi reacción lírica con toda sinceridade y sencillez. Los dos elementos que el viajero capta en la gran ciudad son: arquitetura extrahumana y ritmo furioso. Geometría y angustia. En una primera ojada el ritmo puede parecer alegria, pero cuando se obser­va el mecanismo de la vida social y à esclavitud dolorosa de hombre y máquina juntos, se compriende aquella trágica angustia vacía que hace por evasión hasta el crimen y el bandidaje. ( ... ) Nada mais poético y terrible que la lucha de los rascacielos con el cielo que los cubre. Nieves, lluvias y nie­blas subrayan, mojan, tapan, las imensas torres, pero estas ciegas a todo juego, expressan su intención fría enemiga de misterio... La impressión de aquel immenso mundo no tiene raíz os capta a los pocos dás de llegar y compreendéis de maneira perfecta cómo el vidente Edgar Poe que abrazar­se a lo misterioso y al hervor cordial de la embriaguez en aquel mundo". E, então o poeta lança‑se na rua pois "pero hay que salir a la ciudad y hay que venceria, no se puede uno entregar a las relacciones líricas sin haberse roza­do con las personas; de las avenidas y con la baraja de sombras de todo el mundo. Y me lanzo a la calle y me encuentro con los negros". (16)

Da sua ida ao Harlem escreve:

"No hay angustia comparable a tus ojos oprimidos,
a tu sangre estremecida dentro del eclipse oscuro,
a tu violencia granate sordomuda en la penumbra,
a tu gran prisionero con un traje de conserje!" (17)

Aqui cidade aparece com outra vida, numa outra dimensão que não a dada pelas mercadorias e pelo consumo estrito senso do lugar, aqui não se faz nenhum tipo de concessão. A cidade vai aparecendo no livro de Lorca em sua riqueza infinita, em sua diversidade, multiplicidade, com uma vida construída numa paisagem multifacetada. O poeta caminha e seus passos se apropriam da cidade. O ato de caminhar é um modo de uso, na expressão de Certeau, uma forma de apropriação do lugar um modo de "realização espa­cial do lugar. Se é verdade que existe uma ordem espacial que organiza um conjunto de possibilidades e proibições", afirma o autor, o caminhante atualiza algumas delas. Desse modo, ele tanto as faz ser como aparecer. Mas também as desloca, inventa outras, pois as idas e vindas, as variações ou as improvisações da caminhada privilegiam, mudam ou deixam de lado elementos espaciais". (18)

Talvez o que Sêneca escreveu no início da era cristã traga uma contribui­ção ao debate que nos propomos realizar: "é ocioso o que é consciente de seu lazer", isso porque para o filósofo os "ocupados não vivem a vida, eles simplesmente deixam‑se existir e calculam o tempo apenas pelo relógio e não pela vida interior (19)". Isso porque, no dizer de Dauvignaud, "uma refle­xão sobre o espaço é uma análise da vida". (20)

Bibliografia

Augé, M. Não‑lugares. São Paulo: Papirus, 1994.
Baudrillard, J. Simulações e simulacros. Lisboa: Relógio D'Água, 199 1.
Certeau, M. Artes de fazer: A invenção do cotidiano. Petrópolis: Vozes, 1994.
Dauvignaud, J. Lieux et non‑lieux. Paris: Édition% Galiléc, 1977.
Eco, U. La guerre du faux. Paris: Biblio Essais, 1985.
Lefebvre, H. La vie quotidienne. 3 volumes, Paris: L'Arche Éditeur, 1961.
Rodrigues, A. Lugar, não‑lugar e a realidade virtual no turismo globalizado, mimeo.
Roncayoto, M. La ville et ses te, territoires. Paris: Folio Essais, 1990.

Notas

1. Para Georges Cazes, o turismo não é uma atividade industrial mas um setor que se volta, exclusivamente, ao setor de serviços. É evidente que a atividade turística refere‑se em grande parte à prestação de serviços, mas parece‑me que também traz em seu bojo uma série de atividades produtivas, o que nos leva a pensar que não se pode caracterizar o turismo como atividade econômica, segundo a classificação de Clarke, o que significa      transcendê‑la. O turismo, portanto, apareceria como um misto de atividades que se definiria na articulação entre indústria e serviços, o que requer uma nomeação mais satisfatória  mas não é o caso do debate apresentado no presente texto. Aqui ele aparece como atividade que produz espaços e comportamentos, bem como coisas.
2. Henri Lefebvre, Critique de la vie quotidienne, vol. I, p. 41, Paris: Éditions Anthropos
3. Nelson Brissac Peixoto, Cenários em ruínas, p. 203, São Paulo: Brasiliense, 1987.
4. Ana Fani Alessandri Cartas, O lugar: mundialização e fragmentação, in Fim de século e globalização, São Paulo: Hucitec, 1993.
5. Jean Baudrillard, Simulações e simulacros, p. 21‑3, Lisboa: Relógio D'Água, 1991.
6. Marcel Proust, Em busca do tempo perdido, vol. 1, A caminho de Swan, p. 9. Porto Alegre ‑ Rio de Janeiro: Globo, 1986.
7. David Harvey, A condição pós-moderna, p. 7, São Paulo: Loyola, 1994.
8. Nelson Brissac Peixoto, op. cit.
9. Marcel Proust, op. cit., p. 11.
10.  Michel de Certau, Artes de fazer, vai. 1, A invenção do cotidiano, p 172‑3. Petrópolis: Vozes, 1994.
11.  Idem, ibidem, p. 170.
12.  Citado por Walter Benjamin, in A Paris do segundo império de em Baudelaire, p. 94. In Walter Benjamin, Flávio Kothe (org.), São Paulo: Ática, 1985.
13.  Marcel Roncayolo, La ville et ses territoires, p. 185‑9, Paris: Folio Essais, 1992.
14.  Walter Benjamin, Rua de mão única, p. 73, Obras escolhidas II, São Paulo: Brasiliense, 1987.
15.  Federico García Lorca, Poeta en Nueva York, p. 8/9, Barcelona: Lumen,1966.
16.  Idem, ibidem, p. 16
17.  Ibidem, p. 23
18.    Michel de Certeau, op. cit., p. 177‑8.
19.    Sêneca, Sobre a brevidade da vida, São Paulo: Nova Alexandria, 1993.
Jean Dauvignaud, Lieux ei non lieux, p.